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A PROSTITUIÇÃO
EM BRASÍLIA
"Ela
é uma cortesã no exílio da luxúria.
Roça nos paletós da corte em Brasília. Dorme
com os filhos do poder, mas não nina o próprio filho.
Ele fica com a plebe na periferia da capital do Brasil, 2 milhões
e 200 mil habitantes, 60% deles distantes das linhas perfeitas do
Plano Piloto.
Maurício,
dois anos de idade, corre até o portão. A mãe
se despede, lhe dá um beijo, ele estica os bracinhos e desanda
a berrar. Percebe que ela não irá acalentá-lo
e que mais uma vez passará a madrugada no berço branco
no quarto dos avós, em Samambaia, um dos pedaços mais
empoeirados do Distrito Federal, 215 mil moradores e 8 mil analfabetos.
.
O
pequeno Maurício ainda não vai para a escola, mas
já aprendeu sobre a ditadura das horas. Sabe que toda noite
quando o ponteiro pequeno chega no oito e o grande no doze, a mulher
mais importante do mundo vai sumir e ele vai chorar.
Karla
Lima, 18 anos, segundo grau completo, caminha para o ponto de
ônibus com os olhos rasos d’água e o pensamento tumultuado
pelo berreiro do filho. Não sabe quando voltará a
abraçá-lo, mas tem certeza que o corpo estará
exausto e alma enojada pelo serviço da madrugada. Trabalha
no inferninho mais grã-fino de Brasília, a Gol Night
Club, entrada R$ 80, uma dose de Campari, R$ 30, uma coca-cola,
R$ 9.
Como
a lei brasileira permite a prostituição, mas proíbe
que empresas negociem programas sexuais, os cabarés fazem
de conta que são boates e lucram com os acessórios.
“Por isso a gerência faz tanta pressão para a gente
convencer o cliente beber. Só que para cada gole do cliente
num uísque de R$ 30, a casa registra apenas R$ 1 um para
nós”, resume Karen, paranaense que junto com irmã
formam o plantel de 70 moças que passeiam pelo salão
da Gol.
“Para
efeitos trabalhistas, elas estão a passeio na noite. É
um hipocrisia generalizada”, alfineta o deputado Fernando Gabeira
(PV-RJ), autor de projeto de lei que regulamenta o ofício
mais antigo do mundo.
Gabeira
quer transparência.
Hoje os donos de boate faturam a clientela com as pernas alheias,
mas não oferecem qualquer garantia trabalhista para elas.
“Oficialmente, eles cumprem a lei. Não podem assinar carteira,
pagar previdência, ter direito à aposentadoria porque
explorar a prostituição é ilegal no Brasil.
Para efeitos legais, elas não estão
ali a trabalho. Os empresários
argumentam que elas estão ali porque que querem” , diz Gabeira.
“E quando engravidam?” Rua. São mandadas embora.
Bianca,
olhos de japonesa, cabelo comprido, fascinava os engravatados freqüentadores
da boate Starnight, na familiar quadra 202 sul. Fascinava até
que engravidou, a barriga cresceu e a gerência lhe disse:
“Chega, vai cuidar de seu bebê”.
“Cuidar
como? Dependo do meu trabalho. O pai do meu filho está preso”,
dizia aos prantos no banheiro imundo da boate que, como todos os
outras 13 de alto luxo visitados durante essa reportagem, tem
toalete limpo para os homens e sanitários imundos para as
mulheres.
Em
algumas, como nas mais elegantes de Goiânia, os garçons
e gerentes se arvoram a entrar nos banheiros femininos, batem palmas,
dão broncas, mandam retornar logo ao salão, cumprem
com perfeição o papel de cafetão. Aquele personagem
clássico que acredita que prostitutas são todas iguais,
vagabundas, e que a únicaa diferença está no
tecido da roupa ou no exagero do batom.
A
capital da República se esfrega em dois tipos de prostitutas:
as que servem a corte e as que socorrem a plebe. São profissionais
com clientela, preço, roupa e rotina diferentes, mas que
compartilham a mesma solidão.
Essa
é uma história sobre uma cidade que nasceu embalada
pela utopia da igualdade social e que cresce dividida entre as delicias
dos nobres da corte e as dores dos plebeus
.
Inferninhos de luxo no coração do poder
Dinah
Alves da Silva e a irmã Ana (abaixo), Planaltina e Águas
Lindas: a damas do sexo barato. O baixo meretrício é
mais parecido com o Brasil do que as boates do douradas do Plano
Piloto. Dinah teve dois filhos e adotou três. Todos deixados
por prostitutas em seus braços: Clarice André dos
Santos: triste retrato da zona pobre
Onde
há poder, tem orgia. É assim desde sempre. Quatro
mil anos antes de Cristo, os sumérios mantinham um bordel
dentro do templo mais importante da cidade Urak. Mais tarde, os
romanos inventaram as saunas para o deleite dos poderosos. Chamavam-se
prostibulum e se espalharam pela Europa durante o Renascimento.
As
cortesãs do século XXI se autodenominam garotas de
programa e se parecem com seus excelentíssimos clientes.
São escravas do poder, forasteiras, estão na cidade
a serviço. Rebolam no ritmo da política. Agenda cheia
de terça à quinta-feira. Prometem discrição
e cobram caro pelo serviço. Vendem a carne em anúncios
de jornal, pela Internet ou caçam clientes em cinco bordéis
disfarçados de boates luxuosas. Muitas das moças moram
em Goiânia, vão e voltam toda semana. Dormem em quartinhos
na própria boate onde trabalham ou em pensões mixurucas
administradas pelos cabarés.
Os
filhos ficam com a avó, com a tia, com a vizinha. Alguns
moram na casa das chamadas cuidadoras, mulheres pobres que acolhem
a cria alheia em troca de comida e algum dinheiro. O pagamento é
semanal, aos domingos, o dia de visita.
Ana
Paula odeia domingos. É o dia da mãe abraçá-la
em Goiânia. Distribui balas e beijos, mas diz adeus no final
da tarde. “Eu volto para Brasília. Me assusto porque às
vezes ela não me chama de mãe”, lamenta-se Ana Laura
Barcellos, 26 anos, há cinco perambulando pelas alcovas de
luxo da corte.
Karla
Lima é estreante. Há seis meses cansou das cobranças
da família, um pai vigia e uma mãe doméstica,
e, aconselhada por uma vizinha, apresentou-se no teste da Gol. Recém-saída
da adolescência, Karla exibiu-se de biquíni e passou.
“O preço das coisas é o que mais me impressiona na
boate. Com o que os clientes pagam por um refrigerante, eu compro
um pacote de fraldas para meu filho”, calcula Karla que, em dias
de azar, corteja figurões da política, empresários
e lobistas das 21h às 4h, não consegue nenhum cliente,
espera o sol nascer e retorna para casa de ônibus, sem nenhum
centavo a mais na carteira. Nas noites de sorte, ganha R$ 300 por
programa e experimenta os travesseiros de hotéis cinco estrelas.
“No
primeiro programa fui para um hotel bem chique. O moço pediu
minha carteira de identidade na portaria. Fiquei morrendo de
vergonha. Pensei no meu pai, na minha mãe, e principalmente
no meu filho. Sou de Samambaia. Lá é tudo empoeirado.
Não era para
estar num hotel todo dourado.”
Setor
Comercial Sul. A baixaria da plebe com vista para os palácios
Brasília
não tem zonas à moda antiga, com mulheres penduradas
na janela e luz vermelha na porta. Aqui, a vitrine da luxúria
está no meio dos bairros residenciais e no centro financeiro,
político e comercial. O Plano Piloto não é
o império apenas de endinheirados que se fartam com marafaias
que parecem namoradas. Na Asa Sul e na Asa Norte, há quem
prefira o os suitiens velhos do baixo meretrício.
Maria
de Lourdes de Sousa, 31 anos, grávida de oito meses, já
sabe o que carrega no ventre retalhado de estrias: um anjo em forma
de homem. Chamará Gabriel e a salvará da sina de puta:
“quando ele nascer eu paro, largo a rua”, jura.
Gabriel
anunciou sua chegada no meio de um vendaval doméstico. Malu
descobriu-se prenha no mesmo dia em que o pai do menino que carrega
na barriga lhe deu uma porrada no ouvido.
Foi
parar no hospital, o doutor lhe avisou que além do chute
e da cicatriz, o cidadão lhe deixara um filho. Malu desesperou,
rejeitou o rebento. “Mas como tenho uma estranha fé num estranho
Deus não tive coragem de abortar. Resolvi dar o neném”,
conta.
Só
mudou idéia dois meses depois quando uma senhora lhe entregou
um sapatinho vermelho e disse que meu filho iria me proteger. Agora
estou decidida: Gabriel é meu. Não vou abrir mão
dele. É meu ando da guarda”.
Maria
de Lourdes é o retrato de que a miséria brasileira
não é uma gosma de ignorantes que depois de perderem
tudo, escola, saúde, cultura, perderam também a dignidade.
Malu é uma marafaia digna.
“Não
cobro menos de R$ 10. Tem menina que cobra R$ 5. É não
se valorizar, é se rebaixar”, analisa. “Não sou prostituta.
Estou prostituta. Meus filhos não são filhos da puta.
São filhos da Malu!”!
Malu
é de luta, não desisti na primeira, na segunda, na
enésima pancada. Há dois meses está sem carteira
de identidade. Trocou o documento por uma marmita de comida de R$4,
50, “Deixei de garantia, mas fiquei com tanta raiva do homem que
não voltei lá para pagar e pegar a carteira”, conta.
“Quando
engravidei tive medo de estar com Aids. Fiz todos os exames e não
tenho nada. Sou limpa. Só trabalho com camisinha. Os clientes
gostam de mim, viram meus amigos. Outro dia um me pagou R$10 só
para passar a mão na minha barriga. Teve outro que se esbaldou
quando o neném lhe chutou. Caiu na gargalhada e depois me
perguntou de quantos meses eu tô. Lógico que é
estranho um homem pagar para fazer um programa com uma grávida
de oito meses, mas nesse ramo, não tem ninguém normal.
Todo mundo é problemático. As putas e os clientes.
Só fico pensando em como serão os nossos filhos. Os
nossos e os deles.”
Os
filhos de Dinah Alves da Silva são seis, mas só dois
saíram de sua barriga. Os outros são duas meninas
e dois meninos, abandonados por cortesãs e acolhidos por
dona Dinah, 57 anos, meretriz na mocidade e hoje dona de um bar
na velha zona de Planaltina.
Dona
Dinah, com flor no cabelo e São Jorge na prateleira é
o símbolo de toda essa história. Criou os filhos dos
outros como se fossem seus, registrou cada um deles em seu nome,
paga curso de computador, leva em festa, compra roupa, coloca em
escola particular.
Não
é uma mulher rica, mas tudo que tem dá para os filhos
que nasceram de seu ventre e para os adotados por seu coração.
“Minha mãe é o que eu tenho de mais importante no
mundo. Ela me ensinou tudo”, diz Selma, parida por uma irmã
de Dinah que trabalhava na zona e que morreu durante o parto. “Nós
somos 13 irmãs. Quatro são quengas. Uma mora na Espanha.
Outra em Águas Lindas. Tem a que morreu e eu”, conta Dinah,
nos últimas semanas agoniada com as aflições
de sua caçula, a linda Lidiane de 10 anos.
Lidiane
não conhece a mãe biológica que a abandonou
ainda na maternidade. Dinah a trata como princesa, mas ensina –lhe
também a cartilha da rua: a lição de que ninguém
tem o direito de maltratá-la.
- Mamãe é verdade que eu sou filha da puta?, perguntou
a menina outro dia.
-Quem te disse isso? rebateu Dinah
- Meu irmão, respondeu a garota
- Diz para ele que ele também é e que vocês
dois têm uma mãe que ama muito vocês.
(http://www.direitos.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=246&Itemid=2
7/6/2010)
Só
quando e se aprovarem o projeto de lei que regulamenta a prostituição,
elas poderão lutar por algum direito trabalhista. Aqueles
que usam o trabalho delas parece não estarem nem um pouco
sensibilizados pelo que elas sofrem.
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